Você toma o remédio todos os dias, confere a pressão em casa e o número continua acima do que deveria. É uma situação comum no consultório, e a pergunta que vem junto quase sempre é a mesma: “será que o remédio não funciona comigo?”
Na maioria das vezes, existe uma explicação, e ela costuma ter solução.
Resposta direta: pressão que segue acima da meta apesar do tratamento nem sempre é hipertensão resistente. Antes de chegar a esse diagnóstico, o médico precisa confirmar se a pressão está mesmo alta fora do consultório, se o remédio está sendo tomado como foi prescrito e se existe alguma causa tratável por trás, como a apneia do sono. Só depois dessa checagem a hipertensão resistente entra na conversa.
O que significa dizer que a pressão “não controla”?
Controlar a pressão é chegar à meta combinada com o seu médico, e não apenas ver o número cair um pouco. A diretriz brasileira de 2025 define hipertensão a partir de 140/90 mmHg medidos no consultório, mas a meta de tratamento pode variar conforme o risco cardiovascular de cada pessoa.
Um erro frequente é pensar “baixou, então está bom”. Se a pressão diminuiu, mas não chegou à meta, o tratamento precisa ser reavaliado, acrescentando ou trocando um medicamento. Manter o mesmo esquema sem mudar nada é o que a medicina chama de inércia terapêutica.
Você não está sozinho: uma análise mundial publicada na The Lancet estimou que, em 2019, apenas 23% das mulheres e 18% dos homens com hipertensão tinham a pressão controlada abaixo de 140/90 mmHg. Saiba mais
O que é hipertensão resistente?
Segundo a declaração científica da American Heart Association, hipertensão resistente é a pressão que permanece acima da meta mesmo com o uso de três classes de anti-hipertensivos, em geral um bloqueador do sistema renina-angiotensina, um bloqueador de canal de cálcio de ação prolongada e um diurético, todos em doses máximas ou no máximo que a pessoa tolera. Também entram nesse grupo as pessoas que só alcançam a meta com quatro ou mais medicamentos.
Esse diagnóstico exige duas confirmações: que o remédio está sendo tomado de forma regular e que o “jaleco branco” não está inflando os números.
Antes do diagnóstico: a pseudorresistência
A pseudorresistência acontece quando a pressão parece descontrolada, mas o motivo não é o tratamento em si. Uma revisão publicada na Progress in Cardiovascular Diseases aponta que ela é tão frequente quanto a hipertensão resistente verdadeira. Os dois motivos mais comuns são:
O efeito do jaleco branco. Em algumas pessoas a pressão sobe no consultório, pela tensão da consulta, e fica dentro da meta no dia a dia. Por isso a medida fora do consultório, com o monitor domiciliar (MRPA) ou com a monitorização de 24 horas (MAPA), é parte essencial da investigação. Em um estudo com mais de 147 mil adultos brasileiros, cerca de 3 em cada 10 pessoas com pressão elevada no consultório tinham valores normais fora dele. Saiba mais
O uso irregular do remédio. A pressão alta costuma não dar sintoma, e por isso é fácil esquecer doses, tomar o remédio só quando “parece que a pressão subiu” ou parar por conta própria. Esse uso intermitente costuma fazer mais mal do que parece, porque a pressão oscila e o corpo fica sem proteção estável. Dificuldade de acesso, efeitos colaterais e excesso de comprimidos também contam, e uma revisão publicada na Patient Preference and Adherence reforça que avaliar a adesão deve fazer parte de todo acompanhamento. Falar com franqueza sobre como o remédio está sendo tomado é o que permite ao médico ajustar o tratamento de verdade.
Causas que podem estar por trás de uma pressão difícil de controlar
Descartada a pseudorresistência, o passo seguinte é procurar o que atrapalha o tratamento. A American Heart Association lista hábitos que elevam a pressão, medicamentos que interferem no efeito dos anti-hipertensivos e causas secundárias de hipertensão.
Uma das causas que mais merecem atenção é a apneia obstrutiva do sono, associada à hipertensão resistente. Ronco alto, pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado, sono que não descansa e cansaço durante o dia são sinais para investigar. Obesidade, sono ruim e pressão alta costumam se retroalimentar, e cuidar de um deles pode ajudar os outros.
O aldosteronismo primário (excesso de um hormônio das glândulas adrenais) também deve ser lembrado em quem tem pressão de difícil controle, segundo uma revisão na Frontiers in Endocrinology. Saiba mais
Como o tratamento costuma ser ajustado
Segundo a American Heart Association, o manejo combina reforço das medidas de estilo de vida, diuréticos de ação prolongada (como clortalidona ou indapamida), um antagonista da aldosterona (como a espironolactona) e, se a pressão continuar alta, outros medicamentos de forma gradual. Se ainda assim não houver controle, a orientação é buscar um especialista em hipertensão. Essas decisões dependem de avaliação individual, e mexer na dose ou suspender um remédio por conta própria costuma piorar o quadro.
Chegar à meta também não é sinal para parar o tratamento. A hipertensão é uma doença crônica e a pressão volta a subir se os remédios forem retirados. Atingida a meta, o esquema pode ser ajustado, mas o acompanhamento continua.
Quando procurar uma reavaliação
Vale marcar uma consulta quando a pressão permanece acima da meta em várias medidas, mesmo com uso regular do remédio, ou quando há ronco intenso e sono não reparador. Dor no peito, falta de ar intensa, fraqueza de um lado do corpo, dificuldade para falar ou dor de cabeça súbita e muito forte pedem atendimento de urgência.
Na Clínica Fique Leve, o acompanhamento de pressão alta é conduzido pelo Dr. Victor Margallo, nosso médico responsável pelo controle de hipertensão, de forma individualizada e com metas claras definidas junto com o paciente. O contato para agendamento é pelo WhatsApp.
Para ouvir mais sobre o tema, veja os episódios do PodLeve sobre por que você não sente quando a pressão sobe e sobre apneia do sono e pressão alta.
Leia também: A pressão tá normal, tomo o remédio da pressão mesmo assim?
Perguntas frequentes
Se a pressão continua alta com remédio, quer dizer que o remédio não funciona?
Não necessariamente. A pressão pode estar alta só no consultório, o remédio pode estar sendo tomado de forma irregular ou pode haver uma causa como a apneia do sono atrapalhando o efeito. Só depois de excluir essas situações o médico considera o diagnóstico de hipertensão resistente.
Posso tomar o remédio só quando a pressão subir?
Não é o recomendado. A pressão oscila ao longo do dia e a hipertensão costuma não dar sintoma, então o remédio deve ser usado de forma contínua, como o médico orientou.
Hipertensão resistente tem tratamento?
Sim. Envolve confirmar o diagnóstico, corrigir causas que atrapalham, reforçar hábitos e ajustar os medicamentos. Se a pressão continua sem controle, o acompanhamento com especialista em hipertensão é indicado.
Preciso medir a pressão em casa?
Em muitos casos, sim. A medida fora do consultório ajuda a identificar o efeito do jaleco branco e mostra como a pressão se comporta no dia a dia. Quando indicado, o médico pode pedir o monitor domiciliar (MRPA) ou a MAPA de 24 horas, feita em serviço de diagnóstico.
Fontes
- NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC). Worldwide trends in hypertension prevalence and progress in treatment and control from 1990 to 2019. The Lancet, 2021. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)01330-1
- Carey RM, Calhoun DA, Bakris GL et al. Resistant Hypertension: Detection, Evaluation, and Management. A Scientific Statement From the American Heart Association. Hypertension, 2018. https://doi.org/10.1161/HYP.0000000000000084
- Chia R, Pandey A, Vongpatanasin W. Resistant hypertension: defining the scope of the problem. Progress in Cardiovascular Diseases, 2019. https://doi.org/10.1016/j.pcad.2019.12.006
- Hamrahian SM, Maarouf OH, Fülöp T. A Critical Review of Medication Adherence in Hypertension: Barriers and Facilitators Clinicians Should Consider. Patient Preference and Adherence, 2022. https://doi.org/10.2147/PPA.S368784
- Dal Pont CS et al. The challenge of white-coat hypertension screening. American Journal of Hypertension, 2026. https://doi.org/10.1093/ajh/hpag027
- Yang L, Chen X, Li L. Primary aldosteronism and obstructive sleep apnea in hypertension: interplay, target organ damage, and clinical management. Frontiers in Endocrinology, 2026. https://doi.org/10.3389/fendo.2026.1910992
- Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Nefrologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025. https://doi.org/10.36660/abc.20250624
Literatura buscada no PubMed.
Sobre o autor: Dr. Victor Margallo é médico clínico com atuação em hipertensão e doenças cardiovasculares, diretor técnico-médico da Clínica Fique Leve (Barra da Tijuca, Rio de Janeiro). CRM-RJ 52-80751-6, especialidade Clínica Médica (RQE 16399). Mestre em hipertensão resistente pela UFRJ, com doutorado na mesma área em andamento na UFRJ. Conheça nossa equipe
