O Mounjaro costuma surpreender no início do tratamento. Por agir em duas vias hormonais ao mesmo tempo, GLP-1 e GIP, a perda de peso tende a ser mais acentuada do que muitas pacientes esperavam, e as primeiras semanas trazem resultado rápido e visível. Por isso, quando o peso estabiliza depois de meses de queda consistente, a sensação de estranhamento costuma ser ainda maior do que com outros medicamentos: “se é a medicação mais forte, por que parou de funcionar comigo?”
Resposta direta: na maioria dos casos, não parou. O que está sendo descrito é o efeito platô, uma fase esperada no tratamento da obesidade com tirzepatida, documentada nos próprios estudos que aprovaram o medicamento, e não um sinal de que o organismo “não responde mais” ou de que algo foi feito de errado.
Ainda assim, é um momento que merece atenção, porque a forma como ele é conduzido muda bastante o resultado dali para frente.
O que é o platô e por que ele acontece mesmo com um medicamento de dupla ação
O platô é a estabilização do peso por semanas seguidas, apesar da dose e da rotina mantidas sem mudança. Ele acontece porque o corpo interpreta a perda de peso como uma ameaça à sua reserva energética e aciona mecanismos de defesa para tentar recuperar o que foi perdido, o que costumo chamar, em consulta, de cheque especial do hipotálamo. Isso vale para qualquer método eficaz de emagrecimento, e a tirzepatida não é exceção só porque age em duas vias hormonais em vez de uma.
Um estudo publicado em 2025 no periódico Clinical Obesity, de autoria de Horn e colaboradores, se dedicou especificamente a mapear quando o platô costuma aparecer nos ensaios clínicos SURMOUNT-1 e SURMOUNT-4, que testaram a tirzepatida em pessoas com obesidade. Esses mesmos ensaios, publicados originalmente no New England Journal of Medicine, mostraram perda de peso média entre 16% e 22,5% do peso corporal ao longo do tratamento, dependendo da dose, números que ajudam a explicar por que, quando o platô chega, muitas pacientes já perderam uma parcela expressiva do peso e o corpo está mais mobilizado para defender o que sobrou.
Platô não é motivo para abandonar o tratamento
Esse é o ponto que mais costuma pesar na decisão da paciente, e é onde os dados são mais claros. O estudo SURMOUNT-4 acompanhou pessoas que perderam, em média, 20,9% do peso corporal em 36 semanas de tirzepatida. A partir daí, metade continuou o tratamento e a outra metade passou a receber placebo, simulando a interrupção do medicamento. Um ano depois, quem manteve a tirzepatida perdeu mais 5,5% de peso. Quem parou reganhou, em média, 14%, uma diferença de aproximadamente 19 pontos percentuais entre os dois grupos. Vale registrar: mesmo quem interrompeu o tratamento ainda mantinha cerca de 9,9% de redução de peso em relação ao início, ou seja, nem tudo se perde, mas boa parte do progresso conquistado. Isso confirma o que já vale para outros medicamentos GLP-1: platô não é sinal para parar, é sinal para reavaliar a estratégia.
O que costuma estar por trás do platô, na prática
Além do componente biológico, alguns fatores práticos costumam contribuir para o platô e podem ser ajustados. A titulação de dose da tirzepatida é feita em etapas ao longo de meses, e o platô às vezes aparece justamente quando a dose atual deixou de ser suficiente para aquele momento do tratamento daquela pessoa. Efeitos colaterais gastrointestinais, comuns nas primeiras semanas de cada aumento de dose, levam algumas pacientes a pular aplicações ou evitar o próximo ajuste, o que interrompe a curva de resposta. Sono ruim e estresse elevado também dificultam a perda de peso, com ou sem medicação. E, como a tirzepatida costuma produzir perdas de peso maiores, o cuidado com massa muscular se torna ainda mais importante: sem ingestão adequada de proteína e treino de força, uma parte relevante do peso perdido pode vir de massa magra, e menos massa muscular significa metabolismo mais lento, o que favorece justamente o platô.
Vale destacar, mais uma vez, o que a prática clínica mostra com bastante consistência: o que costuma destravar o platô não é trocar de medicamento, e sim a forma como o acompanhamento é conduzido. Reavaliação semanal, com ajuste fino de dose de acordo com a resposta individual, tende a resolver a estagnação com mais consistência do que aumentar a dose de forma isolada ou trocar de fármaco por conta própria. É um tipo de cuidado que exige tempo de consultório e experiência acumulada em ler essas respostas caso a caso, e é exatamente nesse formato de acompanhamento próximo que a Clínica Fique Leve tem vasta experiência, ajustando a estratégia de tratamento com GLP-1 e tirzepatida na frequência que cada caso pede, não em intervalos fixos e genéricos.
Trocar para outro medicamento é a resposta?
É uma pergunta comum, especialmente entre quem já tentou semaglutida antes e migrou para a tirzepatida esperando um resultado diferente diante do platô. Não existe, hoje, evidência de que trocar de medicamento seja a primeira solução quando o platô aparece. Antes de considerar uma troca, vale investigar dose, adesão, sono, massa muscular e os demais fatores que, na maior parte dos casos, respondem bem a um ajuste de protocolo sem precisar mudar de fármaco.
Quando procurar orientação médica
Ajuste de dose, avaliação de efeitos colaterais e qualquer decisão sobre continuar, pausar ou trocar o tratamento dependem de avaliação médica individual, não devem ser feitos por conta própria. Vale buscar reavaliação sempre que o peso estiver estável há mais de quatro a seis semanas, quando os efeitos colaterais persistirem, ou quando o acompanhamento médico estiver espaçado há mais tempo do que deveria.
Na Clínica Fique Leve, o tratamento com tirzepatida é conduzido com reavaliação semanal quando necessário, ajuste individualizado de dose e integração com alimentação, treino de força e sono, não como uma prescrição isolada e sem seguimento. É a qualidade e a frequência desse acompanhamento, e não o medicamento sozinho, que sustenta o resultado a longo prazo.
Para assistir mais sobre o tema, veja os episódios do PodLeve sobre como destravar o platô no emagrecimento e sobre Ozempic e Mounjaro fazem perder músculo?
Leia também: Ozempic parou de fazer efeito? Entenda por que a perda de peso estaciona e Ozempic e Mounjaro fazem perder massa muscular? Entenda o risco e como evitar
Perguntas frequentes
O platô do Mounjaro é diferente do platô do Ozempic?
O mecanismo de fundo é semelhante: o corpo tenta defender o peso perdido, seja qual for o medicamento. A diferença prática é que, como a tirzepatida costuma produzir perda de peso maior, o platô pode chegar depois de uma redução mais expressiva, e o cuidado com massa muscular tende a pesar ainda mais na hora de avaliar a situação.
Quanto tempo depois de começar o Mounjaro o platô costuma aparecer?
Varia de pessoa para pessoa e depende da dose e da resposta individual. Estudos que analisaram os ensaios clínicos de tirzepatida mapearam esse padrão especificamente, mas o momento exato muda de paciente para paciente, o que reforça a importância da reavaliação individual.
Aumentar a dose do Mounjaro sozinho resolve o platô?
Não. O aumento de dose da tirzepatida segue um esquema de titulação que precisa ser conduzido por um médico, considerando tolerância e efeitos colaterais. Ajustes por conta própria podem causar efeitos adversos sem necessariamente destravar o platô.
Vale a pena parar o Mounjaro quando o peso para de cair?
Geralmente não é a melhor decisão. Os dados do estudo SURMOUNT-4 mostram reganho expressivo de peso após a interrupção do tratamento, mesmo diante de platô. A decisão de pausar ou suspender deve ser avaliada com o médico responsável, dentro de uma estratégia de longo prazo.
Fontes
- Horn, D.B. et al. “Time to weight plateau with tirzepatide treatment in the SURMOUNT-1 and SURMOUNT-4 clinical trials.” Clinical Obesity, 2025 — Wiley Online Library
- Eli Lilly and Company. “SURMOUNT-1 results published in The New England Journal of Medicine.” — Lilly Investor Relations
- “Cardiometabolic Parameter Change by Weight Regain on Tirzepatide Withdrawal in Adults With Obesity: A Post Hoc Analysis of the SURMOUNT-4 Trial.” PubMed — link
- Agência Brasil. “Anvisa aprova uso do medicamento Mounjaro para perda de peso”, junho/2025 — link
- “Muscle health in the modern era of incretin-based therapies.” PubMed — link
Sobre a autora: Dra. Leticia Margallo é médica endocrinologista, especialista em tratamento de obesidade (CRM-RJ 52-958492, RQE 2783), e diretora da Clínica Fique Leve (Rio de Janeiro).
