Por Dra. Leticia Margallo, médica endocrinologista, especialista em tratamento de obesidade (CRM-RJ 52-958492, RQE 2783). Conheça o trabalho da Dra. Leticia
Você sempre foi considerada inteligente, mas vive com a sensação de que precisa do dobro de esforço para fazer o que os outros fazem com facilidade. Começa muita coisa e termina poucas. Esquece compromissos, perde prazos, se distrai no meio da conversa. À noite, ou nos dias mais estressantes, a comida parece escapar do seu controle, e depois vêm a culpa e a promessa de que amanhã será diferente. Muita gente carrega esse padrão por décadas sem que ninguém pergunte se existe uma explicação neurológica por trás dele.
Resposta direta: sim, o TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) pode ser diagnosticado pela primeira vez na vida adulta, porque os sintomas mudam com a idade e costumam ser mascarados por bom desempenho, por outras condições ou pelo esforço de compensar. Existe também uma associação documentada entre TDAH e compulsão alimentar, o que não quer dizer que toda pessoa com compulsão tenha TDAH.
Este texto explica por que o diagnóstico no adulto é difícil, o que se sabe sobre a combinação de TDAH com altas habilidades e como o transtorno se relaciona com a forma de comer. No final, você encontra o questionário ASRS-18, um instrumento de rastreio que pode ajudar a decidir se vale procurar avaliação.
Por que o diagnóstico de TDAH no adulto é tão difícil?
O TDAH começa na infância, mas não se apresenta do mesmo jeito para sempre. Uma revisão publicada em 2026 descreve que o quadro caminha do comportamento hiperativo e impulsivo, mais visível nas crianças, para a disfunção executiva e uma inquietação sentida por dentro nos adultos. Em vez de uma criança que não para quieta, o adulto costuma ser alguém desorganizado, que adia tarefas, esquece coisas e sente a mente sempre acelerada. Esse quadro é muito mais fácil de passar despercebido.
Há ainda um problema de método. Para confirmar o diagnóstico, o médico precisa reconstruir a história de vida, e a memória retrospectiva tem limites. A mesma revisão aponta que os sintomas do TDAH podem se sobrepor ou se confundir com os de transtornos de humor, ansiedade, uso de substâncias, problemas de sono, estresse crônico e alguns transtornos de personalidade. Por isso a avaliação de um adulto não se resume a um questionário: exige entrevista clínica cuidadosa, muitas vezes com informações de pessoas próximas, e atenção para não confundir uma condição com a outra, nem para mais nem para menos.
Os números mostram o tamanho do tema. Uma metanálise global estimou que cerca de 2,6% dos adultos têm TDAH persistente, com início na infância, e cerca de 6,8% apresentam sintomas de TDAH independentemente da idade de início. O consenso europeu sobre TDAH em adultos afirma que o transtorno segue subdiagnosticado e subtratado em muitos países europeus, o que prolonga o sofrimento e o prejuízo funcional. Saiba mais
E por que as mulheres costumam receber o diagnóstico mais tarde?
Revisões recentes indicam que o TDAH em mulheres é pouco reconhecido e frequentemente diagnosticado tarde ou de forma equivocada. Em um estudo qualitativo pequeno, com 28 mulheres diagnosticadas na vida adulta, as participantes relataram anos de críticas, culpa, vergonha e baixa autoestima, e muitas descreveram o diagnóstico como o momento em que a própria história passou a fazer sentido. São relatos de experiência, não estatística populacional, mas ajudam a entender o custo emocional de um diagnóstico que demora.
Altas habilidades e TDAH: a inteligência pode esconder o diagnóstico?
Altas habilidades, também chamadas de superdotação, são um conceito sem consenso na literatura. Uma revisão de 2026 lembra que há debate sobre definir o conceito apenas por QI elevado ou incluir também criatividade, motivação e talentos específicos, e que essa falta de padronização dificulta o estudo do tema, principalmente quando há outras condições associadas, como o TDAH.
O que os estudos mostram até aqui é o seguinte. Uma revisão sistemática apontou o TDAH como a condição mais investigada em pessoas com altas habilidades, mas concluiu que ainda não é possível afirmar com segurança como as duas coisas se relacionam, porque os estudos são muito diferentes entre si. Em um estudo brasileiro com 77 adultos de QI acima do percentil 98, aplicou-se o ASRS-18 e 37,8% tiveram resultado positivo no rastreio. É uma amostra pequena e um instrumento de rastreio, não de diagnóstico, mas o número chama atenção e reforça a necessidade de olhar para esse grupo.
Existe também evidência de que a inteligência elevada pode mascarar o TDAH na avaliação. Em um estudo com adultos que tinham o diagnóstico, os de QI alto tiveram desempenho normal em um teste de memória verbal, enquanto os de QI médio ficaram 0,5 a 1 desvio-padrão abaixo da média. Os dois grupos, no entanto, relataram a mesma gravidade de sintomas e o mesmo prejuízo no dia a dia. Em outras palavras, o teste parecia normal, mas a vida cotidiana não. Isso ajuda a entender como uma pessoa muito capaz pode chegar à vida adulta sem diagnóstico, compensando com esforço e inteligência até o ponto em que a demanda supera a compensação. Vale lembrar que esse estudo avaliou um único teste, e que em crianças com as duas condições uma pesquisa mostrou, segundo o relato dos pais, mais alterações de funções executivas do que em crianças só com TDAH ou só com altas habilidades.
TDAH e compulsão alimentar: existe relação?
Existe uma associação, e ela foi medida. Uma revisão sistemática com metanálise encontrou que pessoas com TDAH têm chance cerca de quatro vezes maior de apresentar algum transtorno alimentar (razão de chances de 3,82). Para o transtorno de compulsão alimentar, a razão de chances foi de 4,13. A relação também funciona no sentido contrário: entre as pessoas com transtorno alimentar, o TDAH foi mais frequente do que no grupo de comparação. Um estudo brasileiro com adultos atendidos em um centro especializado em TDAH encontrou transtornos alimentares em 9 de 86 pacientes, e o transtorno de compulsão alimentar foi o mais comum entre eles.
Quanto ao peso, uma metanálise com 42 estudos e mais de 700 mil pessoas encontrou associação entre TDAH e obesidade em adultos, com razão de chances de 1,55. A prevalência de obesidade foi de 28,2% em adultos com TDAH e de 16,4% em adultos sem o transtorno. O mesmo trabalho observou que quem usava medicação para TDAH não tinha risco maior de obesidade.
Por que isso acontece ainda não está esclarecido. A hipótese mais discutida é que a impulsividade e a desatenção características do TDAH aumentem a ingestão de alimentos, e pesquisadores também estudam o papel dos circuitos de recompensa do cérebro. Vale reforçar que associação não é o mesmo que causa. Nem toda pessoa com compulsão alimentar tem TDAH, e nem toda pessoa com TDAH terá compulsão. Para entender o que é o transtorno de compulsão alimentar, como ele é tratado e fazer um rastreio próprio, leia Compulsão alimentar é doença?.
Na Clínica Fique Leve, partimos do princípio de que a obesidade é uma doença crônica neuroendócrina e não falta de força de vontade. Quando o comportamento alimentar foge do controle, procurar os fatores que se somam a ele, e o TDAH pode ser um deles, faz parte de um cuidado sem julgamento. Se a suspeita aparece, a Clínica Fique Leve conta com neuropsicologia, psiquiatria, psicologia, nutrição e endocrinologia para esclarecer o diagnóstico e conduzir o tratamento do TDAH, com ou sem alteração na alimentação. Quando necessário, o acompanhamento do peso e da alimentação segue em paralelo, de forma integrada. Uma metanálise de ensaios clínicos mostrou, por exemplo, que a lisdexanfetamina reduziu em média 1,29 dias de compulsão por semana em adultos com transtorno de compulsão alimentar, mas essa é uma decisão médica individual, com indicações, riscos e efeitos colaterais que só a consulta pode avaliar.
Faça o rastreio: questionário ASRS-18
Para organizar o que você percebe, disponibilizamos o ASRS-18 (Adult Self-Report Scale), uma escala de autopreenchimento com 18 perguntas sobre os últimos seis meses, desenvolvida com a Organização Mundial da Saúde e adaptada para o português do Brasil.
Autoavaliação · Clínica Fique Leve
Questionário de rastreio de TDAH em adultos (ASRS-18)
Dezoito perguntas sobre como você se sentiu e se comportou nos últimos 6 meses. Leva cerca de 5 minutos.
Seu resultado
Lembrete: esta pontuação não é um diagnóstico. Somente um médico, após avaliação clínica completa, pode confirmar ou descartar TDAH. Sintomas parecidos também aparecem em ansiedade, depressão, problemas de sono e uso de substâncias, e isso é avaliado na consulta.
Instrumento: ASRS-18, adaptação brasileira de Mattos et al. (Rev Psiq Clin, 2006), baseada na escala da Organização Mundial da Saúde (Kessler et al., 2005).
Cada resposta vale de 0 (nunca) a 4 (muito frequentemente), e o total vai de 0 a 72 pontos. As seis primeiras perguntas formam a Parte A, a base do rastreio. Para as três primeiras, contam as respostas a partir de “algumas vezes”, e para as outras três, as respostas a partir de “frequentemente”. Quatro ou mais respostas nessas condições indicam um rastreio positivo. Um estudo brasileiro de validação também propôs o ponto de corte de 21 pontos em uma das duas dimensões (atenção ou hiperatividade e impulsividade), que o questionário mostra ao final.
É importante ser clara sobre o que o ASRS-18 é e o que ele não é. Ele não é um diagnóstico. Um resultado positivo significa que o seu padrão de respostas se parece com o de pessoas com TDAH, e um resultado negativo não descarta o transtorno. Se você marcou muitas respostas em “frequentemente” ou “muito frequentemente”, ou vários itens em “algumas vezes” que atrapalham seu trabalho, seus estudos, suas relações ou sua alimentação, o próximo passo é agendar uma avaliação com um psiquiatra, um neuropsicólogo ou um médico da sua preferência.
Na Clínica Fique Leve, você encontra uma equipe multidisciplinar para cuidar disso em conjunto: avaliação neuropsicológica, psiquiatria, psicologia, nutrição e endocrinologia. Se o resultado do questionário fez sentido para você, essa equipe pode ajudar a esclarecer o diagnóstico e a conduzir o tratamento, mesmo quando o TDAH não tem relação nenhuma com a sua alimentação. Para agendar uma consulta, fale com a clínica pelo WhatsApp.
Quando procurar avaliação médica
Vale procurar avaliação quando a desatenção, a desorganização, a inquietação ou a impulsividade causam prejuízo real e persistente em mais de uma área da vida, ou quando os episódios de comer sem controle se repetem e vêm acompanhados de sofrimento, independentemente do resultado do questionário. O diagnóstico, a escolha do tratamento e o ajuste de qualquer medicamento dependem de avaliação individual. O consenso europeu destaca que existem instrumentos de rastreio e diagnóstico e tratamentos baseados em evidências para o TDAH em adultos, o que significa que o sofrimento prolongado não precisa ser a regra.
Leia também: Compulsão alimentar é doença? Entenda o transtorno de compulsão alimentar e faça o rastreio
Perguntas frequentes
Como saber se tenho TDAH na vida adulta?
Só uma avaliação médica, geralmente com um psiquiatra, confirma o diagnóstico. Ela inclui entrevista sobre os sintomas atuais e sobre a história desde a infância. O questionário ASRS-18 pode ajudar a decidir se vale procurar essa avaliação, mas não substitui a consulta.
É possível descobrir o TDAH só depois de adulto?
Sim. Como os sintomas mudam com a idade e podem ser compensados por bom desempenho, muitas pessoas, principalmente mulheres, recebem o diagnóstico na vida adulta. Os especialistas seguem debatendo os casos em que os sintomas parecem começar só na idade adulta, e por isso a avaliação precisa ser cuidadosa.
Uma pessoa com altas habilidades pode ter TDAH?
Pode. Os estudos sugerem que as duas condições podem coexistir e que a inteligência elevada pode mascarar o transtorno em testes, embora a relação exata ainda não esteja bem estabelecida. Avaliação individual é o que define cada caso.
TDAH causa compulsão alimentar?
Não há prova de que o TDAH cause a compulsão alimentar, mas existe uma associação entre os dois quadros, e pessoas com TDAH têm mais chance de apresentar transtorno de compulsão alimentar. Os mecanismos ainda estão sendo estudados.
O ASRS-18 dá o diagnóstico de TDAH?
Não. É um instrumento de rastreio, que indica se o padrão de respostas é compatível com TDAH e se vale uma avaliação. O diagnóstico depende de consulta médica.
Qual médico devo procurar se o resultado for positivo?
O psiquiatra é o profissional mais indicado para avaliar e tratar o TDAH, e a avaliação neuropsicológica ajuda a esclarecer o diagnóstico. Na Clínica Fique Leve, a equipe reúne essas áreas. Você também pode começar por um médico da sua confiança, que fará a avaliação inicial ou o encaminhamento.
Fontes
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