Ozempic e Mounjaro fazem perder massa muscular? Entenda o risco e como evitar

É comum a paciente perceber, alguns meses depois de começar Ozempic ou Mounjaro, que o peso caiu de forma consistente, mas o corpo não acompanhou do jeito que ela esperava: a roupa fica mais larga, mas o braço parece “mole”, a força na academia caiu, e algumas amigas comentam sobre um rosto mais fino de um jeito que não parece exatamente saudável. A dúvida que chega ao consultório é direta: “estou perdendo gordura ou estou perdendo músculo?”

Resposta direta: apoiada em estudos com os próprios medicamentos, a resposta é as duas coisas, e isso é esperado, mensurável e, na maior parte dos casos, evitável com a estratégia certa. Perder algum grau de massa magra faz parte de praticamente qualquer processo de emagrecimento significativo, com ou sem medicação.

O que muda o resultado final é o quanto dessa perda vem de músculo e o quanto vem de gordura, e isso depende diretamente do que é feito durante o tratamento, não só do medicamento em si.

O que os estudos mostram sobre perda de massa muscular no tratamento com GLP-1

Uma revisão publicada em 2024 no periódico Diabetes, Obesity and Metabolism, de autoria de Neeland e colaboradores, reuniu os dados disponíveis sobre composição corporal em tratamentos com GLP-1 e GLP-1/GIP e apontou que entre 20% e 40% do peso total perdido com esses medicamentos vem de massa magra, incluindo músculo esquelético. Um substudo específico do ensaio SURMOUNT-1 com tirzepatida, publicado em 2025 por Look e colaboradores na mesma revista, encontrou uma proporção próxima de um quarto do peso perdido vindo de massa magra, com o restante sendo gordura, dentro dessa faixa observada de forma mais ampla na literatura.

Vale contextualizar: essa proporção não é exclusividade dos medicamentos GLP-1. Perda de peso por dieta isolada, sem cuidado específico com proteína e treino de força, costuma apresentar uma perda de massa magra proporcionalmente parecida ou até maior. O ponto central não é que esses medicamentos sejam especialmente prejudiciais ao músculo, e sim que qualquer emagrecimento relevante exige atenção deliberada à massa muscular, coisa que a perda de peso rápida e sem acompanhamento estruturado tende a negligenciar.

Por que isso importa além da estética

Menos massa muscular significa metabolismo basal mais lento, porque o músculo é o tecido que mais consome energia em repouso. Isso tem uma consequência direta que já discutimos aqui: menos músculo facilita o platô e favorece o reganho de peso quando o tratamento termina ou estabiliza. Também há impacto funcional real, especialmente à medida que a idade avança: força, mobilidade, equilíbrio e proteção contra fraturas dependem de massa muscular preservada. Em pacientes mais velhos, essa preocupação se soma ao risco de sarcopenia, a perda progressiva de massa e força muscular associada ao envelhecimento: um cenário em que perder músculo durante o tratamento da obesidade pode ter consequência maior do que o número na balança sugere.

O que a ciência mostra que ajuda a prevenir a perda de músculo

As recomendações mais consistentes, reunidas por sociedades como a Obesity Medicine Association, The Obesity Society e a American Society for Nutrition, giram em torno de dois pilares. O primeiro é a ingestão de proteína: a faixa geralmente recomendada durante perda de peso ativa é de 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilo de peso corporal por dia, individualizada conforme o caso, quantidade que, na prática, costuma exigir ajuste deliberado da alimentação, porque a redução natural do apetite provocada pelo medicamento tende a diminuir a ingestão total de comida, proteína incluída. O segundo pilar é o treino de força, com frequência de duas a três vezes por semana, priorizando exercícios que trabalhem grandes grupos musculares. Sono adequado também entra nessa equação, por seu papel na recuperação e manutenção muscular.

Nenhuma dessas estratégias é automática. Elas dependem de orientação individualizada e de reavaliação ao longo do tratamento, porque a necessidade de proteína e a tolerância ao treino mudam conforme a dose do medicamento aumenta e o apetite diminui ainda mais.

O papel do acompanhamento de perto nesse cuidado

Esse é, talvez, o ponto em que a diferença entre um tratamento apenas prescrito e um tratamento efetivamente acompanhado fica mais clara. Monitorar só o peso na balança não mostra se a perda está vindo de gordura ou de músculo: para isso, é preciso avaliação de composição corporal (bioimpedância ou, em casos específicos, densitometria) e reavaliação periódica de proteína, treino e sintomas de fraqueza. É um cuidado que não se resolve com uma receita entregue uma vez e um retorno distante no calendário.

Na Clínica Fique Leve, temos vasta experiência acompanhando de perto pacientes em tratamento com GLP-1 e tirzepatida, com reavaliação semanal quando necessário e integração entre o ajuste de dose do medicamento, a orientação nutricional voltada à proteína e o acompanhamento de treino de força, não como itens isolados, mas como parte de uma única estratégia. É esse tipo de cuidado contínuo, e não o medicamento sozinho, que determina se o resultado final é perda de peso saudável ou apenas um número menor na balança.

Quando procurar orientação médica

Vale conversar com o médico responsável se houver fraqueza muscular perceptível, dificuldade crescente em tarefas que antes eram fáceis, queda de desempenho consistente no treino, ou se o acompanhamento nutricional e de composição corporal nunca fez parte do tratamento. Ajuste de dose, suplementação e qualquer mudança na estratégia devem ser decisões médicas individualizadas, não ajustes feitos por conta própria.

Para assistir mais sobre o tema, veja os episódios do PodLeve sobre Ozempic e Mounjaro fazem perder músculo? e sobre como usar Ozempic e manter os músculos.

Perguntas frequentes

Todo mundo que usa Ozempic ou Mounjaro perde massa muscular?

Em algum grau, sim: perder parte da massa magra é esperado em praticamente qualquer emagrecimento relevante. O que varia bastante entre pessoas é a proporção, e isso depende diretamente de proteína, treino de força e acompanhamento durante o tratamento.

Quanto de proteína preciso comer para não perder músculo no GLP-1?

A faixa geralmente recomendada é de 1,2 a 1,6 gramas por quilo de peso corporal por dia, mas o número ideal deve ser individualizado com orientação nutricional, considerando o apetite reduzido pelo medicamento.

Treino aeróbico é suficiente ou preciso de treino de força?

Treino de força é a estratégia com melhor evidência para preservar massa muscular durante a perda de peso. Atividade aeróbica tem outros benefícios importantes, mas não substitui o estímulo de força para proteger o músculo.

Perder massa muscular é motivo para parar o medicamento?

Não, geralmente não. A resposta costuma ser ajustar a estratégia (proteína, treino, acompanhamento), não interromper um tratamento que está funcionando para a obesidade. Qualquer decisão sobre continuar ou pausar deve ser tomada com o médico responsável.

Leia também: Ozempic parou de fazer efeito? Entenda por que a perda de peso estaciona e Mounjaro parou de fazer efeito? Entenda o platô da tirzepatida

Fontes

  1. Neeland, I.J. et al. “Changes in lean body mass with glucagon-like peptide-1-based therapies and mitigation strategies.” Diabetes, Obesity and Metabolism, 2024 — Wiley Online Library
  2. Look, M. et al. “Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight.” Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025 — PubMed
  3. Nebraska Obesity Society. “Preserving Lean Mass in Weight Loss Management” (síntese de recomendações da Obesity Medicine Association, The Obesity Society, American Society for Nutrition e American College of Lifestyle Medicine), 2025 — link
  4. “Greater lean-body-mass decline with tirzepatide than semaglutide in routine care, revealed by body-composition digital phenotyping.” medRxiv, 2026 (preprint, ainda não revisado por pares — dado de mundo real a ser confirmado por estudos publicados) — link

Sobre a autora: Dra. Leticia Margallo é médica endocrinologista, especialista em tratamento de obesidade (CRM-RJ 52-958492, RQE 2783), e diretora da Clínica Fique Leve (Rio de Janeiro).

Conheça a nossa clinica de Endocrinologia na Barra da Tijuca Rio de Janeiro: Clinica Fique Leve, Av. Ayrton Senna 2600 Link Office 1 Bloco 05 Sala 252. Dra. Leticia Maria Alcantara Margallo CRM 958492/RQE 2783