Por Dra. Leticia Margallo, médica endocrinologista, especialista em tratamento de obesidade (CRM-RJ 52-958492, RQE 2783). Conheça o trabalho da Dra. Leticia
Você começou o Mounjaro, a fome diminuiu e o peso começou a cair. Mas no fim do dia a barriga parece um balão, os gases não dão trégua e às vezes vem um arroto com gosto estranho. A dúvida que chega ao consultório é quase sempre a mesma: isso é do remédio? É normal? Preciso parar?
Resposta direta: sim, o Mounjaro (tirzepatida) pode causar gases, arroto e sensação de barriga estufada. Na bula aprovada pela FDA, a agência de medicamentos dos Estados Unidos, o arroto aparece em 4% a 5% das pessoas tratadas, e a flatulência e a distensão abdominal em 3% a 4%. Esses sintomas costumam surgir no início do tratamento ou depois de um aumento de dose, e tendem a melhorar com o tempo. Se forem intensos, persistentes ou vierem com sinais de alerta, é hora de falar com o seu médico.
Por que o Mounjaro dá gases e barriga inchada?
A tirzepatida age em dois hormônios do intestino, o GLP-1 e o GIP. Um dos efeitos é deixar o esvaziamento do estômago mais lento: a comida fica mais tempo ali, o que ajuda na saciedade, mas também pode dar sensação de estufamento, peso depois das refeições e arroto. Segundo um consenso de especialistas publicado em 2023, esse atraso é mais intenso nas primeiras semanas de tratamento.
Há um segundo mecanismo, que muita gente não liga aos gases: o intestino preso. A prisão de ventre aparece em 11% a 17% das pessoas que usam tirzepatida, contra 5% no placebo. Fezes paradas no intestino fermentam mais e aumentam a distensão. O mesmo consenso observa que, como a pessoa se sente cheia o tempo todo, ela tende a beber menos água, e isso piora a constipação.
Quão comuns são os efeitos gastrointestinais do Mounjaro?
São os efeitos colaterais mais frequentes do medicamento. Nos estudos que levaram à aprovação da tirzepatida para obesidade, as taxas foram estas:
| Sintoma | Placebo | Tirzepatida (5 a 15 mg) |
|---|---|---|
| Náusea | 8% | 25% a 29% |
| Diarreia | 8% | 19% a 23% |
| Prisão de ventre | 5% | 11% a 17% |
| Má digestão | 4% | 9% a 10% |
| Arroto | 1% | 4% a 5% |
| Flatulência (gases) | 2% | 3% a 4% |
| Barriga distendida | 2% | 3% a 4% |
Fonte: bula do Zepbound (tirzepatida), FDA.
Os números de gases podem subestimar o que se vê na prática. O consenso de especialistas lembra que faltam estudos medindo especificamente a flatulência com esses medicamentos.
Quanto tempo duram os gases com Mounjaro?
A bula informa que a maioria dos efeitos gastrointestinais acontece durante a fase de aumento de dose e diminui com o tempo. Na prática, cada novo degrau de dose pode trazer os sintomas de volta por alguns dias. A prisão de ventre é a exceção: em pessoas com obesidade tratadas com esses medicamentos, ela durou em média 47 dias, bem mais que os outros sintomas.
Se os gases e o estufamento continuam semanas depois de estabilizar a dose, vale investigar se há outra causa somada ao remédio.
E o arroto com cheiro de ovo podre?
É uma queixa muito comum entre quem usa Mounjaro, mas ainda não há estudos que meçam esse tipo específico de arroto. O que se sabe é que o arroto em geral faz parte dos efeitos do medicamento. Se ele vier junto com azia, queimação ou refluxo frequente, conte ao seu médico: o refluxo também aparece na bula, em 4% a 5% das pessoas tratadas.
O que ajuda a aliviar gases e estufamento?
As recomendações do consenso de especialistas giram em torno de alguns pontos:
- Respeitar o ritmo de aumento de dose. Subir devagar dá tempo para o corpo se adaptar. Em alguns casos, o médico pode manter a mesma dose por mais tempo antes de subir.
- Cuidar do intestino preso. Mais água, mais fibra e mais movimento ao longo do dia. Laxantes leves só com orientação médica.
- Tratar o sintoma específico. Existem medidas para cada desconforto, e o médico escolhe a mais adequada ao seu caso.
- Reavaliar a dose quando o sintoma é forte. Diminuir a dose ou pausar temporariamente são opções, mas a decisão é médica.
- Investigar outras causas quando o sintoma não melhora como esperado.
O que não ajuda é pular aplicações ou mudar a dose por conta própria. Isso interrompe a adaptação, e o sintoma pode voltar mais forte quando você retomar.
Gases que não passam: quando pensar em disbiose e SIBO
Se os gases e o estufamento continuam fortes semanas depois de a dose estabilizar, eles podem não ser só efeito do remédio. Uma das causas a investigar é a disbiose, um desequilíbrio das bactérias do intestino. Um dos tipos de disbiose é o SIBO, sigla em inglês para supercrescimento bacteriano no intestino delgado. Nele, bactérias que deveriam ficar no intestino grosso se multiplicam no delgado e fermentam a comida antes da hora. O resultado típico é distensão, gases e desconforto depois das refeições.
Existe uma explicação plausível para a ligação com esses medicamentos: eles deixam o trânsito intestinal mais lento, e o trânsito lento favorece o acúmulo de bactérias. Um estudo publicado em 2025 analisou prontuários de mais de 400 mil pessoas com diabetes tipo 2. Quem começou um medicamento da classe do GLP-1, incluindo a tirzepatida, teve mais diagnósticos de SIBO no primeiro ano do que quem usou outros remédios para diabetes. É importante ter clareza sobre o que esse achado significa. O estudo é observacional, foi feito só em pessoas com diabetes e o risco absoluto continuou muito baixo. Ele mostra uma associação e não prova que o remédio causa SIBO. Mesmo assim, os autores sugerem investigar com teste respiratório quem tem sintomas. Saiba mais
Na prática do consultório, quando os sintomas são intensos ou não melhoram depois que a dose estabiliza, eu investigo disbiose. O diagnóstico de SIBO é feito com o teste respiratório de hidrogênio e metano, recomendado pela diretriz do Colégio Americano de Gastroenterologia. A pessoa bebe uma solução com açúcar e, ao longo de algumas horas, sopra em tubos que medem os gases produzidos pelas bactérias. Explicamos o exame em detalhes neste vídeo do PodLeve: Como diagnosticar SIBO e IMO: teste respiratório de hidrogênio e metano explicado.
Gases são sinal de que o Mounjaro está funcionando?
Não. Segundo o consenso, a perda de peso com esses medicamentos é em grande parte independente dos efeitos gastrointestinais. Ou seja, não é preciso sofrer para o remédio funcionar. Sintoma que atrapalha a vida merece ajuste.
Sinais de alerta: quando procurar atendimento
Procure atendimento médico rápido se tiver:
- dor abdominal forte e persistente, que pode irradiar para as costas, com ou sem vômito, porque pode indicar pancreatite;
- dor no lado direito, abaixo das costelas, febre ou pele e olhos amarelados, que podem indicar problema na vesícula;
- vômitos que não param ou sinais de desidratação, como boca muito seca, pouca urina e tontura;
- barriga muito distendida sem conseguir eliminar gases nem fezes.
São situações raras, mas que não devem esperar a próxima consulta.
Acompanhamento faz diferença
Na Clínica Fique Leve, o tratamento com tirzepatida e semaglutida é acompanhado de perto. O ajuste de dose leva em conta como o seu intestino está respondendo, e não só o número na balança. Quando os sintomas persistem, você não precisa procurar outro lugar. A clínica tem uma equipe completa: a Dra. Fabiana Lopes, gastroenterologista com foco em doenças funcionais do intestino, como o SIBO e a síndrome do intestino irritável (CRM-RJ 52-822361, RQE 23259), e nutricionista para ajustar a alimentação durante o tratamento. O cuidado com o intestino entra no mesmo plano do tratamento da obesidade.
Leia também: Digestão ruim por causa do Ozempic ou Wegovy: como resolver, Mounjaro parou de fazer efeito? Entenda o platô da tirzepatida e Ozempic e Mounjaro fazem perder massa muscular?
Perguntas frequentes
É normal ter muitos gases tomando Mounjaro?
É comum, principalmente nas primeiras semanas e depois de cada aumento de dose. Na bula, gases e barriga distendida aparecem em 3% a 4% das pessoas tratadas, e o arroto em 4% a 5%. Se o sintoma é intenso ou dura semanas depois de estabilizar a dose, converse com o seu médico.
Tirzepatida deixa a barriga inchada?
Pode deixar. O medicamento torna a digestão mais lenta e pode causar intestino preso, e os dois aumentam a sensação de barriga estufada. Água, fibra e movimento ajudam, e o médico pode ajustar o ritmo de aumento da dose.
Preciso parar o Mounjaro por causa dos gases?
Na maioria dos casos, não. Gases e estufamento costumam ser leves e passageiros. Quando incomodam muito, o médico pode manter a dose por mais tempo, reduzir ou pausar. Não interrompa por conta própria, porque parar sem plano costuma trazer de volta boa parte do peso perdido.
O que tomar para gases com Mounjaro?
Depende do que está por trás. Se for intestino preso, a conduta é uma. Se for má digestão ou refluxo, é outra. O ideal é o médico que acompanha seu tratamento indicar a medida certa, em vez de testar remédios por conta própria.
Mounjaro pode causar SIBO?
Ainda não há prova de que cause. Um estudo observacional de 2025, feito em pessoas com diabetes tipo 2, encontrou mais diagnósticos de SIBO no primeiro ano de uso de medicamentos como a tirzepatida, mas o risco absoluto foi muito baixo. Se os gases e a distensão continuam fortes depois que a dose estabiliza, vale investigar com o teste respiratório.
Ozempic e Wegovy também dão gases?
Sim. Os efeitos gastrointestinais são comuns a toda a classe de medicamentos que age no GLP-1, incluindo a semaglutida.
Fontes
- Bula do Zepbound (tirzepatida). U.S. Food and Drug Administration (FDA), seção de reações adversas. accessdata.fda.gov
- Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). New England Journal of Medicine, 2022;387(3):205-216. doi.org/10.1056/NEJMoa2206038
- Gorgojo-Martínez JJ, Mezquita-Raya P, Carretero-Gómez J, et al. Clinical Recommendations to Manage Gastrointestinal Adverse Events in Patients Treated with GLP-1 Receptor Agonists: A Multidisciplinary Expert Consensus. Journal of Clinical Medicine, 2023;12(1):145. doi.org/10.3390/jcm12010145
- Sun Y, Veccia D, Liu BDX, et al. Diagnostic Evaluation of an Increased Risk of Developing Small Intestinal Bacterial Overgrowth Associated with GLP-1 Receptor Agonists and Dual GLP-1/GIP Receptor Agonists: A Global Retrospective Multicenter Cohort Analysis. Diagnostics, 2025;15(17):2264. doi.org/10.3390/diagnostics15172264
- Pimentel M, Saad RJ, Long MD, Rao SSC. ACG Clinical Guideline: Small Intestinal Bacterial Overgrowth. American Journal of Gastroenterology, 2020;115(2):165-178. doi.org/10.14309/ajg.0000000000000501
