Por Dra. Leticia Margallo, médica endocrinologista, especialista em tratamento de obesidade (CRM-RJ 52-958492, RQE 2783). Conheça o trabalho da Dra. Leticia
Com o fim da patente da semaglutida no Brasil, em março de 2026, novas canetas começaram a chegar às farmácias. Algumas são mais baratas, e a pergunta aparece no consultório toda semana: “Posso trocar? É a mesma coisa?”
Resposta direta: a semaglutida sintética, como o Ozivy e o Semavy, tem a mesma molécula da semaglutida biológica, mas é fabricada de outro jeito. Com o fim da patente, as cópias aprovadas até agora reproduzem o Ozempic: são indicadas para diabetes tipo 2, não para obesidade, e chegam no máximo a 1 mg por semana. Como a molécula é a mesma, é provável que também ajudem a perder peso, mas o efeito esperado é menor do que o do Wegovy e do Poviztra, que são as versões de semaglutida feitas para tratar obesidade, na dose de 2,4 mg. Trocar ou não depende de para que você usa, da dose de que precisa e de como está respondendo ao tratamento.
O que é semaglutida biológica e o que é sintética?
Segundo a Anvisa, medicamentos biológicos são moléculas complexas obtidas por biotecnologia, como a técnica do DNA recombinante, em que células vivas são “programadas” para fabricar a substância. É assim que se produz a semaglutida do Ozempic e do Wegovy, da Novo Nordisk, e também a do Extensior (para diabetes tipo 2) e do Poviztra (para obesidade). Essas duas são semaglutida biológica, fruto de uma parceria com a Novo Nordisk, distribuídas pela Eurofarma. Elas não são genéricos nem biossimilares.
Os sintéticos são produzidos por síntese química, montando a molécula peça por peça em laboratório. A própria Anvisa reconhece que os análogos sintéticos da semaglutida ficam num meio-termo entre os dois mundos: a molécula final é a mesma, mas o processo de fabricação pode gerar impurezas diferentes das do produto biológico. Saiba mais
O que quebrou a patente foi a semaglutida do diabetes
A patente da semaglutida terminou no Brasil em 20 de março de 2026. As versões que chegaram desde então copiam o Ozempic, que é a semaglutida pensada para tratar diabetes tipo 2: mesma concentração (1,34 mg/mL), doses de 0,25 mg, 0,5 mg e 1 mg por semana, e indicação em bula para diabetes.
Para tratar obesidade, a semaglutida é usada em outra dose. O Wegovy e o Poviztra, as versões indicadas para obesidade, chegam a 2,4 mg por semana, e um estudo publicado em 2025 já testou 7,2 mg, com perda de peso média de 18,7%. E dose faz diferença. No estudo STEP 2, pessoas com obesidade e diabetes tipo 2 foram sorteadas para receber 1 mg ou 2,4 mg de semaglutida ou placebo. Em 68 semanas, a perda de peso foi de 7,0% com 1 mg, de 9,6% com 2,4 mg e de 3,4% com placebo. Saiba mais
Então, sim: como a molécula é a mesma, é provável que a semaglutida sintética também reduza o peso. Mas, na dose máxima disponível hoje, o efeito esperado é menor do que o das versões feitas para obesidade.
O Ozivy é genérico do Ozempic?
Não, pelo menos não no sentido regulatório. A Anvisa esclareceu que o Ozivy “não é um medicamento genérico”, porque a regulação brasileira não prevê genérico de medicamento biológico. Ele foi registrado como medicamento novo, um análogo sintético de produto biológico.
Na prática, porém, ele chega ao paciente como uma alternativa ao Ozempic, com o mesmo princípio ativo e a mesma concentração.
Como a Anvisa avaliou a semaglutida sintética?
A Anvisa informou que, para esses produtos, avalia impurezas, formação de agregados, esterilidade e risco de imunogenicidade, que é a chance de o organismo produzir anticorpos contra o medicamento. Também avalia resíduos do processo químico, como solventes e catalisadores metálicos. A agência declarou que usa como referência o guia da FDA, a agência americana, para peptídeos sintéticos que copiam medicamentos de origem biológica. Saiba mais
Esse guia da FDA se apoia principalmente em demonstrar que o princípio ativo é o mesmo, comparar o perfil de impurezas e avaliar o risco de imunogenicidade com testes de laboratório (in vitro). Ele não exige novos estudos clínicos de eficácia. Isso não quer dizer que o produto seja inferior. Quer dizer que a equivalência foi demonstrada pela química e pelo laboratório, e não por um estudo comparando resultados em pessoas.
Há uma exceção até agora. O Semavy (Mantecorp/Hypera), também uma semaglutida sintética, aprovado em julho de 2026, tem um estudo clínico em humanos que, segundo a empresa, foi feito com o mesmo produto. O estudo, publicado em 2026 e conduzido pela farmacêutica indiana Sun Pharma, comparou a semaglutida sintética com o Ozempic em 314 adultos com diabetes tipo 2, na Índia, por 24 semanas. A redução da hemoglobina glicada foi equivalente (2,04% contra 1,95%), assim como a perda de peso e os efeitos colaterais, e nenhum paciente desenvolveu anticorpos contra o medicamento. É um dado importante, mas com limites claros: foi feito em pessoas com diabetes, e não em obesidade, durou seis meses e não avaliou coração nem fígado. Saiba mais
Quais as diferenças práticas para quem usa?
Indicação. As versões sintéticas foram aprovadas para adultos com diabetes tipo 2. O uso para obesidade fica fora da bula.
Dose. As versões sintéticas vão até 1 mg por semana. Quem precisa de dose maior, como no tratamento da obesidade com 2,4 mg, não tem hoje uma opção sintética que cubra essa dose.
Conservação. O Ozivy precisa ficar na geladeira (2 °C a 8 °C) antes e depois de começar a usar. O Ozempic, depois de aberto, pode ficar fora da geladeira, até 30 °C, por até seis semanas. Para quem viaja ou não tem como refrigerar a caneta durante o dia, isso faz diferença.
Os benefícios além da perda de peso valem para a sintética?
Essa é a pergunta que, hoje, ninguém sabe responder. A semaglutida biológica foi testada em grandes estudos clínicos que mostraram benefícios que vão além do número na balança:
- Redução de risco cardiovascular. No estudo SELECT, com mais de 17 mil pessoas com obesidade e doença cardiovascular, sem diabetes, a semaglutida reduziu em 20% o risco de morte cardiovascular, infarto ou AVC em comparação com o placebo.
- Melhora da esteatose hepática. No estudo ESSENCE, com pessoas com esteato-hepatite (a forma inflamatória da gordura no fígado) e fibrose moderada a avançada, a inflamação no fígado se resolveu em 62,9% de quem usou semaglutida, contra 34,3% no placebo.
- Melhora da fibrose. No mesmo estudo, a fibrose do fígado diminuiu em 36,8% dos pacientes com semaglutida, contra 22,4% no placebo.
- Proteção cardíaca. No estudo STEP-HFpEF, em pessoas com insuficiência cardíaca e obesidade, a semaglutida melhorou os sintomas, a limitação física e a capacidade de caminhar.
Todos esses resultados vieram de estudos feitos com a semaglutida biológica, na dose de 2,4 mg. As versões sintéticas chegam só até 1 mg e não passaram por estudos desse tipo. A molécula é a mesma, então é razoável esperar o mesmo efeito. Mas razoável não é comprovado. Esses estudos acompanham milhares de pessoas por anos e custam muito caro, e não há garantia de que um dia serão repetidos com as versões sintéticas. Talvez nunca tenhamos essa resposta.
Por isso, para quem usa semaglutida também para proteger o coração ou tratar a gordura no fígado, e não só para emagrecer, esse ponto pesa na escolha.
Posso trocar o Ozempic pela semaglutida sintética?
Essa é uma decisão para tomar com o seu médico, e não na farmácia. Na minha prática, avalio caso a caso: para que a pessoa usa a semaglutida, em que dose está, como vem respondendo e quanto o custo pesa na continuidade do tratamento. Um tratamento que a pessoa consegue manter vale mais do que um ideal que ela abandona em três meses por causa do preço. Mas, para quem precisa de dose acima de 1 mg, está numa fase delicada do tratamento ou teve reação no passado, a troca merece mais cuidado.
Se a troca for feita, o ideal é acompanhar de perto as primeiras semanas: tolerância, efeitos gastrointestinais, fome e evolução do peso. Pode ser preciso reajustar a dose.
Leia também: Ozempic parou de fazer efeito? Entenda por que a perda de peso estaciona, Mounjaro dá gases? Barriga inchada, arroto e o que fazer e É possível parar o remédio de emagrecer e não engordar de novo?
Perguntas frequentes
Ozivy é igual ao Ozempic?
Tem a mesma molécula, a semaglutida, na mesma concentração, mas é fabricado por síntese química, e não por biotecnologia. Foi aprovado para diabetes tipo 2, em doses de até 1 mg, e precisa ficar sempre refrigerado.
Semaglutida sintética funciona para emagrecer?
Provavelmente sim, porque a molécula é a mesma. Mas ela está aprovada para diabetes, e não para obesidade, e chega só a 1 mg por semana. Nessa dose, a perda de peso esperada é menor do que com o Wegovy ou o Poviztra, que usam 2,4 mg. O único estudo em humanos com semaglutida sintética, o do Semavy, foi feito em pessoas com diabetes.
Semaglutida sintética tem mais efeito colateral?
No único estudo que comparou diretamente, o do Semavy em pessoas com diabetes, os efeitos colaterais foram semelhantes aos do Ozempic e ninguém desenvolveu anticorpos contra o medicamento. Para as demais versões sintéticas, não há estudos clínicos publicados. Qualquer reação nova depois de uma troca deve ser comunicada ao médico.
A semaglutida sintética protege o coração e o fígado como o Ozempic e o Wegovy?
Não se sabe. A redução de risco cardiovascular, a melhora da esteatose hepática e da fibrose e o benefício na insuficiência cardíaca foram demonstrados em estudos com a semaglutida biológica, na dose de 2,4 mg. As versões sintéticas não foram testadas nesses desfechos.
Posso trocar por conta própria?
Não é recomendado. A troca envolve conferir a dose, a indicação e a forma de conservar a caneta, e pode exigir reajuste nas primeiras semanas.
Uma decisão individual
A chegada de novas semaglutidas amplia o acesso ao tratamento, e isso é uma boa notícia. Mas trocar de caneta é uma decisão de tratamento, e não só de preço. Na Clínica Fique Leve, avaliamos cada caso olhando a indicação, a dose, a resposta até aqui e o plano de longo prazo, para que a mudança, se fizer sentido, não atrapalhe o que já foi conquistado.
Fontes
- Anvisa. Anvisa aprova primeira caneta de semaglutida sintética análoga ao Ozempic para diabetes. 26/05/2026. gov.br/anvisa
- Anvisa. Anvisa divulga atualização sobre pedidos de registro de semaglutida. 20/03/2026. gov.br/anvisa
- U.S. Food and Drug Administration. ANDAs for Certain Highly Purified Synthetic Peptide Drug Products That Refer to Listed Drugs of rDNA Origin (guia para a indústria).
- Eurofarma. Eurofarma é a primeira farmacêutica brasileira a lançar tratamentos com semaglutida biológica injetável para obesidade e diabetes. eurofarma.com.br
- Davies M, Færch L, Jeppesen OK, et al. Semaglutide 2·4 mg once a week in adults with overweight or obesity, and type 2 diabetes (STEP 2). The Lancet, 2021;397(10278):971-984. doi.org/10.1016/S0140-6736(21)00213-0
- Wharton S, Freitas P, Hjelmesæth J, et al. Once-weekly semaglutide 7·2 mg in adults with obesity (STEP UP). The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025;13(11):949-963. doi.org/10.1016/S2213-8587(25)00226-8
- Ambika Gopalakrishnan U, Joshi AS, Giri R, et al. Semaglutide Injection in Indian Patients With Type 2 Diabetes Mellitus: A Randomised, Phase III, Active-Controlled Study. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026;28(8):7094-7103. doi.org/10.1111/dom.70891
- Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (SELECT). New England Journal of Medicine, 2023;389(24):2221-2232. doi.org/10.1056/NEJMoa2307563
- Sanyal AJ, Newsome PN, Kliers I, et al. Phase 3 Trial of Semaglutide in Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis (ESSENCE). New England Journal of Medicine, 2025;392(21):2089-2099. doi.org/10.1056/NEJMoa2413258
- Kosiborod MN, et al. Semaglutide in Patients with Heart Failure with Preserved Ejection Fraction and Obesity (STEP-HFpEF). New England Journal of Medicine, 2023;389(12):1069-1084. doi.org/10.1056/NEJMoa2306963
